Novo método para produzir células-tronco promete ser mais simples e menos polêmico.

Estudo publicado na “Nature” defende que é possível produzir células capazes de se transformar em qualquer tecido do corpo sem a necessidade de clonagem ou manipulação genética

Uma forma mais simples, barata, rápida e menos polêmica de criar células-tronco em laboratório pode abrir portas para uma nova era da medicina regenerativa. Um estudo publicado ontem na revista “Nature” apresentou um novo método que foi avaliado como revolucionário por uma série de cientistas. Inicialmente aplicado em camundongos, ele poderia reparar tecidos e órgãos humanos sem a necessidade de clonagem ou manipulação genética.

Na técnica, chamada de “aquisição de pluripotência desencadeada por estímulos” (Stap, na sigla em inglês), células extraídas de camundongos foram simplesmente imersas numa solução moderadamente ácida, com pH de 5,5, por cerca de meia hora, para se transformarem nas células estaminais, capazes de se tornarem tecidos variados no organismo.

Técnica inicialmente rejeitada

Pesquisadores japoneses tiveram a ideia de desenvolver esta técnica por acaso, quando notaram que células espremidas num tubo capilar encolhiam para o tamanho de células-tronco. A partir daí, começaram a estudar como os efeitos do ambiente poderiam afetá-las. Eles chegaram à conclusão de que era possível converter células sanguíneas retiradas de camundongos recém-nascidos em células que se comportavam como as tronco. Depois fizeram o mesmo com células do cérebro, da pele, do músculo e da medula óssea. O estudo foi rejeitado várias vezes antes de ser publicado, mas acabou ganhando a atenção de uma das principais revistas científicas do mundo.

— Todos falavam que era um artifício. Tivemos dias bastante difíceis — comentou Haruko Obokata, bióloga do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, em Kobe, no Japão, autora do estudo que começou há cinco anos.

O corpo humano é composto de células com papéis específicos — células nervosas ou musculares, por exemplo. Já as células-tronco são aquelas que se transformam em qualquer tecido e representam um grande campo de pesquisa por seu potencial regenerativo. A descoberta surpreendeu os cientistas porque as tentativas anteriores de produzir células-tronco tinham sido repletas de dificuldades.

— Esta abordagem é de fato revolucionária. Trará uma mudança enorme na forma como cientistas percebem a interação entre ambiente e genoma — comentou à “BBC” Dusko Ilic, especialista em células-tronco do King’s College London.

Uma das formas conhecidas é a clonagem, que é polêmica porque envolve a criação e a destruição de embriões. No Brasil, a pesquisa com este tipo de célula é permitida pela Lei de Biossegurança (11.105/05).

— Aqui este debate já está resolvido — disse Stevens Rehen, chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias da UFRJ.

Existem também as células-tronco adultas retiradas de tecidos de placenta, cordão umbilical ou medula óssea, em geral menos versáteis que as embrionárias. Além disso, há as células-tronco de pluripotência induzida (iPS), um método de manipulação genética criado na última década. Neste caso, são retiradas células da pele do indivíduo, e é introduzido um vírus contendo genes que entram no DNA da célula e reprogramam o seu código genético, levando-a de volta ao seu estágio embrionário.

— Esta pesquisa é revolucionária até pela sua simplicidade — declarou Rehen. — O trabalho da “Nature” é interessante porque torna o processo de reprogramação em estágio embrionário ainda mais simples. Já temos a reprogramação com vírus, e agora é um simples estímulo, de alteração de pH, que promove isto.

Segundo Rehen, um dos grande benefícios da técnica é redução de custo e tempo.

— O ponto central é ter atualmente agilidade e custos reduzidos para produzir células-tronco, a matéria-prima da medicina regenerativa. Hoje gastamos R$ 20 mil por reprogramação de células — explicou Rehen, que espera os novos passos da pesquisa. — Vamos testar isso, e se for confirmado que a técnica é robusta como o artigo está vendendo, ela vai quebrar um paradigma. Ou, ao contrário, pode morrer. É assim que a ciência funciona.

Um dos achados considerados impressionantes no artigo é que as células Stap são também capazes de formar tecido placentário, algo que nem as células embrionárias ou as iPS podem. Isto poderia tornar a clonagem muito mais fácil, segundo Teruhiko Wakayama, da Universidade de Yamanashi, no Japão, pioneiro em clonagem de camundongos. Ele foi inclusive um dos que inicialmente considerava que o projeto seria “um grande esforço em vão”. Mas acabou acreditando na pesquisa e colaborando com o seu avanço. Foi ele quem, por exemplo, sugeriu que fossem manipuladas células de animais recém-nascidos e não de adultos.

Atualmente, a clonagem requer a extração de óvulos não fertilizados, a transferência de um núcleo para o óvulo, o cultivo in vitro de um embrião e, em seguida, a transferência do embrião para um substituto. Se as células Stap puderem criar a sua própria placenta, elas podem ser transferidas diretamente para o substituto. Wakayama é cauteloso, no entanto, ao dizer que a ideia está atualmente no “estágio dos sonhos”.

A pesquisadora japonesa já foi capaz de reprogramar uma dezena de tipos de células, incluindo as cerebrais, da pele, do pulmão e do fígado, sugerindo que o método poderá funcionar com a maioria dos tipos de célula. Segundo Obokata, em média, 25% das células sobrevivem ao estímulo externo e 30% destas se convertem em pluripotentes — uma proporção alta em comparação com as células iPS (1% sobrevive e são necessárias semanas para se tornarem pluripotentes). Ela quer agora aplicar o novo método em células de camundongos adultos e, posteriormente, em humanos.
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FONTE:  http://oglobo.globo.com/saude/novo-metodo-para-produzir-celulas-tronco-promete-ser-mais-simples-menos-polemico-11442422#ixzz2rt607nnM

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