Malária, tuberculose e febre amarela podem ser tão perigosas quanto ebola

Infectologista diz que outras doenças matam muito mais que ebola, mas pouco se fala sobre

 

O ebola vem chamando a atenção e deixando os órgãos de saúde internacionais em alerta com situações de epidemia. A taxa de mortalidade e a crescimento geográfico do vírus do ebola vem assustando pessoas no mundo todo. De acordo com balanço anunciado pela diretora da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, até esta sexta-feira (12) foram identificados 4.784 casos. Assim como o ebola, outras doenças – que já possuem altas taxas de mortalidade – também teriam potencial para gerar epidemias perigosas, se forem negligenciadas.

O balanço da OMS afirma que já morreram em decorrência da epidemia mais de 2,4 mil pessoas. Na Guiné, Libéria e Serra Leoa, o número de casos estaria crescendo mais depressa do que a OMS teria capacidade de tratá-los, segundo Chan. A doença estaria atingindo ainda a Nigéria, Senegal e na República Democrática do Congo teria surgido uma epidemia paralela que em um mês já teria feito 32 vítimas mortais. Temendo a contaminação, alguns países e empresas aéreas já teria tomado medidas restritivas quanto à entrada de imigrantes vindos dos países atingidos.

Na última semana, uma mulher foi hospitalizada no último dia 9 na Itália apresentando sintomas de ebola e causou uma forte preocupação de o vírus ter entrado na Europa através de turistas infectados. Após ser consultada, os médicos descobriram que a mulher, na realidade, sofria de malária – doença infecciosa transmitida por mosquitos e que em casos graves podem progredir para coma ou morte. Em relatório divulgado no final de 2013, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, só durante o ano de 2012, 207 milhões de casos de malária e 627 mil mortes em decorrência da doença tenham sido identificados.

A infectologista Anna Caryna Cabral, que atua no Hospital Universitário Pedro Ernesto, além dos hospitais Barra Day, Santa Maria e Daniel Lipp, explica que, apesar de não ter a repercussão que o ebola está tendo, a malária é a doença infecciosa que mais mata. “A cada quatro segundos morre uma criança vítima de malária e a África é o continente que mais sofre com a doença. Aqui no Brasil, 97% dos casos estão restritos à região amazônica. Casos já foram diagnosticados no Sudeste, mas eram casos trazidos de pessoas da região amazônica ou da África, atravessando fronteiras”, explica.

Para a infectologista, no caso de epidemias, o papel dos serviços de saúde na vigilância epidemiológica é fundamental, ainda mais em doenças com comportamentos distintos e realidades diversas. “O ebola e a malária são doenças diferentes, um é causado por um vírus, enquanto a outra é por um protozoário. Os agentes de saúde têm um papel fundamental, principalmente na região amazônica. Eles vão até a casa das pessoas, tem um contato íntimo para identificar a doença e encaminhar o paciente para o tratamento, que é fornecido pelo governo”, explica.

Muitas doenças além do ebola têm potencial epidêmico, de acordo com a infectologista. Para ela, dengue, febre amarela, malária e tuberculose são as doenças infecciosas mais perigosas atualmente. A tuberculose seria, inclusive, a doença que mais mata no Brasil. “Eu costumo dizer que o Brasil é país tuberculoso, nós temos muitos casos”, diz Anna Caryna.

Tuberculose: doença que mais mata no país

Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 6 milhões de novos casos em todo o mundo são notificados anualmente e mais de um milhão de pessoas morrem por conta da tuberculose. O surgimento da Aids e de focos de tuberculose resistente aos medicamentos tornam esse cenário ainda mais problemáticos. Ainda de acordo com dados do Ministério da Saúde, 70 mil casos novos e 4,6 mil mortes em decorrência da doença são notificados por ano no Brasil – que ocupa o 17º lugar no ranking dos 22 países responsáveis por 80% do total de casos de tuberculose no mundo.

Sobre os tipos de tuberculose resistentes a medicamentos, a infectologista explica que existe agora uma forma de tuberculose pouco falada, a XDR-TB. A micobactéria resistente a medicações teria surgido por conta de pessoas que recebem o diagnóstico de tuberculose, mas que abandonam o tratamento antes do tempo total, que duraria seis meses. “Essas pessoas abandonam o primeiro tratamento, a micobactéria fica resistente e os remédios não fazem mais efeito. Você começa outro tratamento e a pessoa abandona de novo. Esse quadro gerou uma micobactéria que é super resistente a tudo que nós temos de tratamento. O problema é que qualquer pessoa que nunca teve tuberculose pode ser contaminada por essas pessoas que estão infectadas pela XDR-TB. É uma doença perigosa, mas que ninguém fala nada”, alerta.

Os perigos da febre amarela

No caso do ebola, o contexto socioeconômico da região afetada na África é algo que influenciou de forma inegável o desenvolvimento da epidemia lá. A influência dos fatores econômicos e sociais também pode ser percebida no Brasil, como aponta a infectologista. Assim como a malária é um problema muito mais presente na região amazônica, a febre amarela também é – e um risco de epidemias não é algo considerado impossível. “A febre amarela pode ser causada por dois mosquitos diferentes. Quando a pessoa chega doente no Rio de Janeiro, por exemplo, é picada pelo aedes aegypti e esse mosquito pica outra pessoa, a doença pode sim se espalhar. Contudo, o controle é diferente porque no caso da febre amarela existe uma vacina”, explica.

A febre amarela é uma doença infecciosa aguda e de curta duração – no máximo 10 dias. O Ministério da Saúde lembra que a transmissão de pessoa para pessoa não existe, assim como também não existe tratamento específico. De acordo com os dados do Ministério, a única forma de evitar a febre amarela seria pela vacinação contra a doença. A vacina é gratuita e pode ser aplicada nos postos de saúde em qualquer altura do ano. O Ministério da Saúde recomenda que a vacina seja aplicada 10 dias antes de viagens para as áreas de risco de transmissão da doença.

Além do Brasil e de outros países latino-americanos, a febre amarela atinge também o continente africano. Para a infectologista, o grande problema é a falta de informação e de divulgação. “A febre amarela não viveu esse aumento expressivo dos casos como aconteceu com o ebola. Só se começou também a falar de forma tão incisiva do ebola por conta dos riscos de chegar a Angola. Dependendo de onde acontece a epidemia, chama atenção. Sempre teve ebola em Serra Leoa e na Guiné”, questiona.

Fonte: Jornal do Brasil

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